Apesar de este não ser um espaço muito pretencioso, bem ou mal é através desta torre que realizo alguns experimentos e tento desenvolver alguma teoria estética, uma perspectiva própria sobre a arte, de modo que penso que seja este o lugar para tratar deste assunto. Estava eu vasculhando o catálogo de certa livraria, quando fui surpreendido por uma onda kitsch, bem na verdade coisa pior. Capaz disformes feitas inteiramente com inteligência artificial.
Eu sou um entusiasta da IA, mas esta deve ser utilizada como uma ferramenta no processo criativo, pode gerar ideias, criar um modelo inicial, mas você precisa trabalhar em cima disso, corrigir erros, contemplar o resultado, sobretudo se estamos falando de uma obra religiosa. Se tem um lugar onde não pode haver espaço para preguiça é a religião. Se você manifesta preguiça e relaxo naquilo que é devido a Deus, onde vai manifestar capricho?
Repare no crucifixo completamente disforme na imagem. O responsável simplesmente jogou um prompt genérico em algum gpt da vida e mandou imprimir. Indesculpável. O cúmulo da preguiça. Este é apenas um exemplo, há muitos outros, mas vou poupar a sensibilidade do leitor.
Quanto obra em si, é uma reedição de um autor pretérito, tudo o que o editor teria de trabalho seria atualizar a ortografia, inserir algumas notas de rodapé para esclarecer alguma eventual obscuridade devido a distância histórica e fazer uma capa maneira. Diz o ditado que não se pode julgar um livro pela capa, mas talvez esta tenha algo a dizer sobre o trabalho editorial.
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Só rememorando algumas misérias da indústria editorial brasileira - não relacionadas diretamente ao caso acima citado - recordo-me de certo livro onde certo o autor usava o ''infoescola'' como fonte (bem, pelo menos citou nominalmente o site), e outro que copiou ipsis literis trechos da Wikipédia (sem o dizer, o escândalo da bolha); não vai demorar muito para empurrarem obras inteiramente compostas via ChatGPT.
Reitero que o problema não é o uso da IA, que pode ser uma ferramenta útil, mas seu uso preguiçoso e amador. Se a situação cultural nesta selva de incivilizada já não era boa, vai ficar tanto pior. Tentem sobreviver.


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