El Senõr de la Salle



Um santo é um personagem extremamente complexo, alguém que alcançou o cume de sua personalidade ao ponto da divindade como que vir a refletir em sua humanidade. A Igreja se esforça por torná-los conhecidos, a arte faz o seu melhor confeccionando belas imagens, escrevendo hagiografias, mas ainda aí estamos dependentes da interpretação de um terceiro, cabe ao artista conseguir captar e expressar o fenômeno que foi aquele bem-aventurado. No cinema não é diferente, na verdade é tanto mais difícil, pois está é uma obra de muitas mãos... Esse é um dos motivos pelos quais apesar da boa intenção, filmes sobre santos são quase sempre decepcionantes, assim como não se consegue colocar Oceano em um copo de água, os artistas desta indústria não conseguem compreender e expressar esse tipo de personalidade que excede o meramente humano.

O filme El Senõr de La Salle sofre desses mesmos problemas, mas apesar disso é ainda uma janela, uma desculpa para falarmos deste servo de Deus. Logo no início vemos uma cena de esgrima, nosso herói se mostra um nobre, rico, bem educado, exímio espadachim, mora em uma bela mansão com seus parentes, é um homem piedoso e tem seu lugar no clero numa época onde este gozava de grande prestígio. Discernindo nas circunstâncias da vida ser a vontade de Deus que este viesse a se dedicar a educação das classes populares, o santo reúne um pequeno grupo de professores e inicia uma escola... O filme não é muito generoso com o grupo inicial: são apresentados como um bando de patetas. Os sucessos e fracassos desse primeiro ''experimento'' levam o João a refinar a obra, transforma aquela trupe em uma ordem religiosa, dá-lhes um hábito, uma regra, fazem a profissão dos votos de pobreza, obediência e castidade. O Pe. La Salle já observava a castidade e a obediência dada a sua condição de sacerdote, mas vem então a abandonar a boa vida que tinha como filho da nobreza, compartilhando da mesma condição de seus professores e alunos.

A obra vai se espalhando. A educação popular francesa era absolutamente caótica. A começar, não havia horário fixo, uma continuidade: os alunos vinham quando dava na telha e ficavam o tempo que dava; os professores ensinavam eles individualmente, cada aluno devia aguardar sua vez, e enquanto aguardavam, bem eles podiam trabalhar um pouco para o professor, não? Que é claro, cobrava pelas aulas e não lhes costumava pagar pelo trabalho dos alunos.  Bom, sem trabalho infantil agora, as aulas passam a ter horários e dias fixos, um plano, um método de ensino, as classes são coletivas -  os alunos são divididos por níveis - muito do que faz a escola uma escola... E como se tratava de uma ordem religiosa, não cobravam, ensinavam de graça.

Se você está familiarizado com o roteiro da vida espiritual deve saber: a obra encontrou oposição, teve em seu seio traidores, o santo foi caluniado, exilado, vítima de falsas acusações... O filme se esforça por retratar esse conflito - e o faz de forma razoável . E como que para dar um desfecho heróico a tudo isso, temos ao final o reconhecimento da obra pelo rei Luís XIV - e o diretor até retrata a monarquia de forma simpática - e o perdão do traidor pelo santo, ilustrando o mandamento cristão. 

O filme serve como desculpa, é bom para introduzir a obra de São João Batista de La Salle, mas não é suficiente. Que ele possa despertar a curiosidade de leitor, que contudo devera ser aprofundada por suas próprias pesquisas.


About Edmundo_Noir

Sommelier de anime, profeta do IApocalipse, missionário do chá e webteólogo. Pedalando entre ruínas.

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